Testemunho Natural – Yema Ferreira

by angolanasnaturais2011

O meu testemunho

Eu, na realidade, sempre usei o cabelo mais natural do que processado por químicos (ou à quente) – se contarmos o número de anos. A minha mãe não permitiu que ninguém desfrisasse a cabeleira até muito tarde. Eu tinha uns 12 anos quando ela autorizou qualquer transformação que fosse e a escolha foi o famoso Jheri URL (sim, também fui vítima dos anos oitenta!). Usei-o assim até aos 17-18 anos e depois tive uma fase em que, com uma vizinha e amiga, experimentei várias formas de usar o cabelo natural. Fazíamos carrapitos, usávamos lenços e fitas para enfeitar o cabelo, enfim. Mas nada do que experimentamos me satisfez por completo, por isso passado um ano ou dois passei para as tranças postiças – que na altura (meados dos anos 90) também só estavam a começar a ser aceites porque nós Angolanos ainda tínhamos muito a mania de que não éramos Africanos! Fico felicíssima por esta situação estar devagar a mudar. Mas isto é outro assunto que requer o seu próprio espaço. Voltando ao meu cabelo, fiquei nas tranças (que fazia em cabelo natural) uns 4 anos e, no fim do meu primeiro ano da faculdade, cansada das tranças, desfrisei o cabelo pela primeira vez e fiz um corte curtinho. Aí entrei para um ciclo que me acompanhou até a Luziela ter sido iluminada para criar este grupo!

Passei a deixar espaço entre as tranças para “arejar” o cabelo. Neste espaço, que durava umas 3 à 4 semanas, usava o cabelo natural, fazia dois puxinhos, tranças viradas, até cheguei a experimentar twist-outs, mas muito timidamente e NUNCA, NUNCA saí a rua com um. Depois voltava a fazer tranças postiças e assim sucessivamente. O cabelo crescia bastante, o que era o objectivo, e depois eu ficava sem saber o que fazer com ele porque estava tão grande que era meio ridículo usar postiço a ainda por cima dificultava o trabalho de desmanchar. Aí desfrisava Mas eu nunca gostei do meu cabelo desfrisado, acho muito violenta a transformação, não gosto dos químicos e DETESTO cabeleireiras – querem sempre fazer o que lhes apetece na cabeça dos outros! o cabelo desfrisado exigia que eu fosse ao salão pelo menos de vez em quando, o que tornava a experiência ainda mais desagradável para mim. Para complicar ainda mais as coisas, passado pouco tempo (depois do primeiro retoque), começava-me a cair o cabelo na nuca – infalivelmente Aí eu recomeçava tudo de novo: trançava e ia cortando (o que descobri mais tarde que se chamava transição!), o cabelo crescia, etc. Na realidade eu estava numa transição perpétua, sem saber bem para onde estava a transitar.

O meu primeiro Big Cut foi em 2001, depois de terminada a faculdade. Usei o cabelo bem curtinho, com maquilhagem, experimentei gel e pintei-o. Os produtos da Pantene (champô e condicionador) funcionavam muito bem no meu cabelo. Apesar disso, não estava muito satisfeita com o meu cabelo, sobretudo quando começou a crescer e um ano depois voltei ao meu ciclo. Em retrospectiva vejo que o que faltou foi informação, sobretudo sobre como hidratar, mas também o que fazer com o cabelo (penteados, etc.).

Depois voltei para Luanda e foi aí onde tudo parou, ou melhor, voltou para traz! deixei umas duas vezes o meu já tradicional espaço de tempo entre as tranças, mas cansei-me de ser objecto de atenção indesejada e de perguntas e comentários parvos. Fui fraca, o espaço sem tranças passou a ser sempre desfrisado, deixei de explorar. Tornei-me numa comum convencionalista, consciente de estar infeliz por isso, mas sem forças para lutar por mim.

O meu segundo BC foi em Fevereiro de 2010, há pouco mais de um ano e meio. Estava a chegar ao ponto do meu ciclo em que desfriso o cabelo por desespero quando fui introduzida ao grupo. Obrigada à Malu por me ter convidado e à Luziela por ter criado o grupo e obrigada a todas vocês pela inspiração que me dão todos os dias, não só para manter o meu cabelo natural, mas de uma forma mais geral para ser mais eu e até para seguir em frente com projectos que tenho em mente há anos!

Hoje não tenho objectivos concretos para o meu cabelo, a não ser mantê-lo natural e saudável. Deixei de usar champô, uso o cleansing cream, um leave in e creme para twists da “Culrs”. Além disso uso água e um dentre os 3 seguinte: azeite de oliva extra virgem, óleo de coco ou manteiga de Karité. Descobri uma nova dimensão dos meus caracóis Durmo de lenço de cetim e hidrato o cabelo duas vezes por dia – de manhã e a noite. Tenho experimentado vários penteados. Gosto do twist-out nos segundo e terceiro dias. Mas dá mtuio trabalho. Como tenho uma filha pequena e outro a caminho, vou ter que arranjar outra solução menos “labor intensive” porque não tenho tempo mesmo. O wash n’ go também bate, mas o cabelo está a crescer muito e esta a ficar mais difícil dar-lhe o formato que quero. Uma solução para mim talvez fosse mantê-lo curto e fazer wash n’ go. Como vêm, ainda estou a explorar, mas estou a gostar do processo. Sinto-me livre.