Espelho, Espelho meu… – Kizzy

by angolanasnaturais2011

Eu tive um sonho… que quero partilhar com vocês. Não só o sonho mas também a minha interpretação deste sonho, que claro pode ser diferente da vossa. O que eu proponho nesta reflexão é oferecer uma resposta ao “Porque?” quando alguém faz um comentário negativo sobre o nosso cabelo, nós nos sentimos tão defensivas… O que podemos fazer para remediar esta situação?

O Sonho
‘Era o aniversario da minha irmã e estava super bem organizado. Até o menu tinha sido imprimido. Havia pessoas a servir e bastantes convidados. Quem organizou tudo foi o meu pai e não a minha mãe. Eu e a minha irmã estávamos sentadas a conversar e a congratular a organização da festa e a observar os convidados.

Primeiro reparamos que não conhecíamos ninguém e depois reparamos que na festa, que era em Luanda e contávamos ver uma maioria dos nossos primos e amigos Angolanos e também uma maioria negra, tal nao era o caso.

Havia bastante diversidade e não havia uma maioria étnica – não sei bem se essa é a expressão que procuro – eram todos diferentes e em igual numero. .
E depois o detalhe – estes são apenas os que me lembro – havia uma mulher super feminina e bonita mas com barba e bigode, uma barba mesmo cheia; o meu pai estava super elegante e bem vestido e a minha mãe nem sequer mudou de roupa; a mim convidou-me uma mulher para dançar e não era nem eu nem ela que guiávamos, nenhuma de nós assumiu o papel, intercalávamos; havia um casal, os dois com um cabelo loiro que quase parecia branco, uma pele branca quase translúcida mas eu não conseguia dizer se eram duas mulheres ou dois homens, ou uma mulher e um homem ou outra coisa qualquer. O sentimento que recordo é de pensar ‘não parecem humanos’.

Eu e a minha irmã decidimos ir conhecer e conversar com este leque interessante de convidados. E depois eu acordei.’

Eu tenho estado a pensar nos últimos dias porque que nós, as naturais, somos tão defensivas com os comentários dos outros em relação ao nosso cabelo. E também tenho estado a pensar nas noções de beleza: quem as define, como elas nascem, e, como, dependendo da cultura, invariavelmente subscrevemos a esses conceitos.

No meu sonho, tudo era oposto a tradição, a norma. A começar pelo facto de que no teu aniversario esperas conhecer os teus convidados. E no sonho vi-me tanto como espectador e participante, e lembro-me de pensar ‘como pode ser isto?’, e de a certa altura não saber como me comportar porque parecia tudo tão caótico, sem regras.

E deste sonho veio-me esta ideia, de que, para abordar o problema ou questão da nossa sensibilidade face ao julgamento/opinião dos outros temos que pensar fora do nosso contexto. Fora da nossa personagem.

Pensem porque que nós, os seres humanos, de maneira geral ‘rejeitamos’ maneiras de ser/estar diferentes do ‘grupo’ em geral. Pensem nas convenções casamento, educação, religião, trabalho, ser pais. Aposto que para uma delas há uma noção do ‘certo’ ou ‘errado’ ou do ‘correcto’ ou ‘não apropriado’. Há um comportamento aceitável que todas nós de uma maneira ou de outra aceitamos como o ‘normal’ ou ‘correcto’.

Pensem nestes exemplos: um homem com cabelo desfrisado, uma mulher com barba, uma mulher vestida com o ‘hijab’ (definição de “hijab” ou véu islâmico, a cobertura de todo o corpo da mulher com excepção do rosto e das mãos). Que pensamentos e comentários vêm a vossa cabeça?

Porque eh que face a diversidade que encontramos na natureza nós admiramos e congratulamos, mas quando se trata de nós, seres humanos, tentamos padronizar comportamentos, conceitos, crenças…?

Agora, quando A ou B faz o comentário desfavorável, eu acho que o que acontece vai por esta ordem:
– primeiro, consciente ou inconscientemente, nós nos identificamos com a mensagem, ou seja, como um dia também partilhamos da mesma opinião ou semelhante nos reconhecemos no ‘padrão’ e até certo ponto concordamos. Inicialmente há um processo de identificação, que tem a ver com a natureza humana e como reagimos a coisas diferentes ou que não compreendemos.
– a seguir, nós rejeitamos a mensagem porque já não nos subscrevemos ao mesmo ‘padrão de beleza’, definimo-nos como diferentes e temos esta sensação de ‘nós VS eles’.

Usando o contexto em cima: Se ‘A’ disser ‘acho que eras mais bonita quando tinhas o cabelo desfrisado’, eu consigo ver o porque ‘A’ pensa assim, a diferença sendo que eu agora me subscrevo a um conceito de beleza diferente do ‘A’.
Vemos que ao rejeitar o conceito de ‘A’ precisamos de substituir com um novo conceito de beleza neste caso ‘o conceito natural’. Porque se não tivermos um conceito para fazer esta substituição, a única opção que nos resta é que ‘não somos bonitas’.

O nosso conceito ‘natural’ parece diferente apenas por ainda não estar padronizado. Mas é uma questão de tempo, porque a historia indica que dentro em breve as pessoas também vão conseguir opinar ‘eh bonito’. Porque padronizar faz parte da nossa natureza e por isso uma vez tendo os números necessários, o conceito será aceite. Por nós e pelos outros, até fazer parte da norma, do costume.

O que me leva a crer que quando se trata de nós, seres humanos, não celebramos a diferença, matamos a diferença. (Deixo este pensamento com vocês porque é um ponto forte e requer reflexão).

Até aqui defini que primariamente, quando ouvimos os comentários há um processo de identificação com o ‘comentador’ por causa da experiencia comum e depois há rejeição. Agora vou tentar definir, o que é que rejeitamos mais concretamente.

Porque sentimos tanta defesa em relação a alguém que tem uma opiniao diferente, um gosto diferente do nosso? O nosso discurso e aprendizagem é mais rico quando há diversidade. Eu convido-vos a ter isto em conta quando na próxima vez alguém fizer um comentário negativo. É uma diferença de opinião, pode ser discutida, debatida, defendida o que não diminui o valor da opinião da outra pessoa simplesmente porque não concordam connosco. Também não pensemos que são ignorantes, e que nós de alguma forma somos superiores. Apenas nos subscrevemos a conceitos diferentes de beleza, por enquanto.

Então o problema não é a diferença de opinião de um ou dois, mas o sim grande numero que se subscreve a este pensamento, muitos deles familiares e amigos? Talvez.

Então eu sugiro o seguinte: O ressentimento que sentimos é uma noção de ‘rejeição’. Queremos aceitação e o reconhecimento que nos é devido porque seguimos o ‘natural’. Em outras palavras, nos aceitamos como somos, estamos liberadas de certos comportamentos. ‘Eles’ – falo aqui do grupo de pessoas que se subscreve a noção de beleza dos cabelos compridos, longos e lisos – nos rejeitam e ‘nós’ também rejeitamos a nós mesmas porque, ainda que por um segundo, nós deixamos correr a ideia ‘não sou bonita’. E a ‘historia’ indica que o nosso pensamento isolado não conta, precisamos da confirmação dos outros.

Pois é. Mudamos o uniforme mas ainda estamos na mesma prisão, e o nome da prisão é ‘Vaidade’, o ‘Eu’ que quer ser aceite, reconhecido, bonito e exaltado é a ‘Vaidade’. Substituímos o nosso vocabulário, para comunicar o novo estado: o caracol, a carapinha dura, cabelo crespo… E quando faço pesquisa online já vejo sites como ‘naturais de cabelo comprido’ e até já há definições para o tipo de carapinha que tens dependendo da elasticidade do ‘caracol’. Começa então o processo de ‘aceitação’ ou ‘padronização’ para que os outros também se possam subscrever a este novo conceito.

O verdadeiro ‘inimigo’ aqui, não é A ou B que faz o comentário, mas sim a Vaidade. Um conceito que já vem desde gerações antigas, todas elas com um conceito de ‘beleza’, um conceito que encontramos já estabelecido quando nascemos. Mas o problema é que para a ‘Vaidade’ existir tem que haver um conceito de ‘beleza’ que é partilhado pelo grupo maioritário. E o ‘ressentimento’ com que lutamos cada vez que A ou B faz o comentário, esse ‘ressentimento’ é a nossa Vaidade que vem a superfície e se mostra pela primeira vez, em vez de se esconder no subconsciente.

Essa rejeição que sentimos ‘é a bruta verdade’: precisamos da aprovação dos outros. A beleza não é real; é um conceito criado por pessoas e por isso precisamos de pessoas para validar a sua existência – uma verdade que diminui o nosso poder e nos limita. Pensem nos vossos conceitos de beleza, de onde vem, quem os criou, como afectam a maneira como te vês a ti própria?

A Vaidade é como um monstrinho que precisa de ser alimentado e acariciado. E quando ele esta bem nós nos sentimos ‘bonitas’. E este ‘monstrinho’ não está preocupado com o que é saudável, ou bom, ou ético… Ok se for saudável ainda melhor, mas a preocupação é de ser/estar ‘bonita’, e não só ser e estar mas esse estado tem de ser reconhecido por outros. E enquanto nós estivermos preocupadas com a nossa ‘beleza’ o individuo por detrás do corpo não importa. Pensem nos sacrifícios que fazemos pela beleza, as torturas a que subtemos o nosso corpo, o nosso ‘Eu’…há aquela expressão ‘Beleza a quanto obrigas’…

E eu acho ser este o problema, o real problema que debatemos quando partilhamos/reagimos aos comentários, a nossa vaidade.

Não digo que padronizar é errado, reconheço isto como parte da nossa natureza e tem a sua utilidade. Mas digo que os conceitos de beleza a que nos subscrevemos limitam e oprimem o individuo. Limitam porque reduzem o pensamento ao corpo, oprimem porque quando um individuo se identifica com o seu corpo é como se estivesse numa prisão da qual não pode sair.
E está dependente dos conceitos que outras pessoas criam para definir o seu ‘EU’. E nesse mundo quando alguém te diz que não és bonita, é como se estivessem a tirar um pedaço de ti, porque nós crescemos com esta noção que é desejável ser ‘bonita’. Mas as noções existentes têm a ver com o material e com o corpo. E o que é que acontece com o corpo? Envelhece. E o material? Tem que ser comprado ou adquirido.

A minha proposta é que uma vez que reconhecemos o ‘padronizar’ como natural, e reconhecemos que somos prisioneiros da ‘Vaidade’ e dos conceitos de beleza que encontramos (e não conceitos que criamos). Proponho que criemos um novo conceito de beleza que libere o individuo, que o inspire e motive a ser uma pessoa melhor.

Um conceito de beleza que não seja sobre o individuo mas sim sobre a forma como tratamos e lidamos com os outros, dos animais, as plantas as pessoas. Um conceito que:
– não seja sobre ‘O teu cabelo esta lindo hoje’ mas sim ‘como lidaste com a pessoa que fez o comentário negativo hoje’
– ou não seja sobre ‘que produtos usas’ mas sim ‘qual é o impacto destes produtos no ambiente’
– ou não seja ‘quão longo esta o teu cabelo’ mas sim ‘como te sentes hoje’.

A maneira de pensar da pessoa que está preocupada com a sua vaidade e da pessoa que esta preocupada com o bem-estar do outro é diferente, e por conseguinte as suas acções são diferentes. A minha proposta esta nesta mudança de mentalidade, para que quando celebrarmos uma mulher bonita não pensarmos tanto nos seus atributos físicos mas sim nas acções/no legado que ela deixa.
No caso do nosso grupo. A.N.A estaríamos a celebrar o numero de pessoas que fulana X ajudou e aconselhou, a maneira como ela lidou com aqueles que não concordavam com ela, e se for o caso os produtos que ela ajudou a criar/ ou encontrou que tem um impacto positivo no ambiente.

E nesta minha proposta, nesta nova possibilidade, não importa tanto a aparência mas sim acções e o bem estar comum não de um, mas de todos.