Recebemos exactamente o que esperávamos – Luziela

by angolanasnaturais2011

Eu e a minha “hairmana”, Ana dos Santos, decidimos assistir o Workshop sobre Cabelos e Penteados, ontem, no Hotel Skyna. Este workshop faz parte do programa do Seminário sobre a Mulher Africana, que foi muito publicitado nos jornais e revistas nacionais nas ultimas semanas.

Inicialmente, estava muito ansiosa em finalmente participar no primeiro evento sobre Cabelos e Penteados, e além do mais, em Luanda! Mas tive o cuidado de não chegar lá com grandes expectativas.

A nossa boa maneira angolana, o evento começou tarde, mas quando começou, correu tudo bem! A Palestrante foi a Cabeleireira Rute Faria. Nada de negativo a dizer sobre ela como profissional e como pessoa, foi muito simpática e aberta a opinião de todos, e não tenho duvidas nenhumas sobre a sua capacidade de tratar de cabelos (a crista da Dicla Burity é de sua confeição).

A primeira parte do workshop foi sobre colorimetria (o estudo das cores e suas composições – ou em palavras mais simples “como se deve misturar as tintas para pintar o cabelo”). Mesmo se achei que a informação não era adequada aos meus interesses, creio que é informação que toda mulher deve ter para poder evitar a ocorrência de uma cabeleireira biscateira tentar pintar o seu cabelo de modo errado.
Ajudou-me a entender porque alguns trabalhos de coloração vão para o torto, e se algum dia uma cliente quiser que eu pinte o seu cabelo, saberei como o fazer ou como aconselha-la a faze-lo em outro salão.
Esta parte do workshop foi completada por uma demostração de coloração de uma “cobaia alegre”, que até saiu muito bem!

E óbvio que foi difícil para as outras participantes de ignorar as jubas orgulhosas que eu e a Ana carregávamos, e nos tempos mortos fomos bombardeadas de perguntas: “Oque fazem para o cabelo ficar assim?”, “Que tipo de produtos usam?”, “Mas ele assim esta mesmo natural?”, “Nunca desfrisaram o cabelo?”, ”Aonde e que vocês tratam do cabelo?”, “Será que o meu também pode ficar assim?”, “O que devo fazer para o meu cabelo ficar assim?”, “Vocês são irmãs?”. Respondemos todas as perguntas de forma muito simpática e diplomática, fazendo cuidado para não ferir nenhuma susceptibilidade desfrisada ou aplicada (lol).

A segunda parte do workshop consistiu na demostração de um corte de cabelo. A cobaia alegre desta vez tinha uma aplicação, portanto não se importou nem um pouco que se lhe corte o cabelo, tendo em conta que o “nosso cabelo cresce muito dificilmente” (palavras da própria).

A Rute é muito boa cabeleireira, a colorir e a cortar, mas nunca arriscaria por a minha cabeça na suas mãos, e vou explicar porque:
1. Quando ela declarou, muito energeticamente, que não tem problema nenhum em tratar do cabelo africano (a Rute é portuguesa e branca), apontando para a minha cabeça, ela disse que se eu fosse ao salão dela ela “abriria a [minha] raiz, aplicaria um desfriso, e faria-[me] um penteado lindo!”. Em nenhum momento ela parou para pensar que eu uso o cabelo natural porque quero, e não porque estou a procura de alguém que possa “salvar-me” do meu cabelo “crespo”.
2. Apesar de afirmar que o cabelo natural é lindo de morrer, e de admitir que quando as clientes decidem usar o cabelo natural as cabeleireiras de Luanda perdem a clientela, o único exemplo de um penteado natural que ela mostrou foi o da Sheron Menezes (actriz brasileira, para quem não conhece), cuja a Rute disse que usa “MUITO PRODUTO!” para o cabelo ficar como é.

Portanto, é a mesma história de sempre, em Angola quando se fala do cabelo de mulheres Africanas nunca falha a conversa sobre o desfriso e outras formas de alisamento (falou-se de escova progressiva, a chapinha que é o milagre de todo cabeleireiro, do desfriso que quando bem aplicado e tratado é maravilhoso), e garanto-vos que se eu e a Ana não estivéssemos presentes, como exemplos de opção ao alisamento, ninguém teria a curiosidade de perguntar como pode fazer para tornar o seu cabelo natural!

Mas o Workshop não foi só negativo para a nossa crescente comunidade natural em Angola, para além das demostrações “hands-on”, gostei do facto da Rute Faria esclarecer que TODOS tipos de cabelo necessitam tratamento, e que não importa a forma que a mulher Angolana usa o cabelo, ela é sem duvidas vaidosa e gloriosamente linda!

Só espero que da próxima vez que organizarem um Seminário sobre a Mulher África, que sejam capazes de nos esclarecer sobre os aspectos relacionados a TODAS as realidades Africanas, sem excluir nada nem ninguém.