Ai, cabelo natural!

by angolanasnaturais2011

Ai, meu cabelo.

Desenho de Lwsinha MC

Ai, ai, ai! Grito não por dor no couro cabeludo pelos puxões de cabelo, mas como mãe de uma menina que receia como o mundo ao seu redor pode influenciar a forma como ela se vê a si mesma e ao cabelo dela natural.

Entre os momentos mais lisonjeantes da minha semana está o cuidado do cabelo da minha pequena, desde lava-lo a ter-la entre as minhas pernas ou eu debruçada sob ela a inventar penteados que realcem a beleza dela e a valorização do seu cabelo. Nos seus quase 9 anitos, ela sabe que o cabelo dela não é igual ao das amigas dela de descendência europeia, asiática ou do meio-riente. A minha pequena sabe que o cabelo dela molhado cai-lhe ao nível da cintura, que minutos depois encolhe até aos ombros, que molda em forma de capacete arredondado ou desarrumado, em trancinhas pequeninas individuais (bobs) ou corridinhas, como sugeriu o Teta Lando na canção Negra de carapinha dura. Ela também desfruta das suas missanguinhas que ajudam na matemática (e dos colegas da escola) ou os caracóis grossos como resultado de carrapitos. Desde cedo que a ensinei que o cabelo dela cresce em espiral desde a raiz e que não há nadinha de errado com a forma, textura e cor que ele tem. Sei que muitas outras mães (e pais) ai pelo mundo também partilham a mesma mensagem com os seus pequeninos.

Daí que é decepcionante ouvir/ler as ocorrências em alguns colégios privados por Luanda. Não tenho conhecimento de casos em outras províncias, mas aposto que, ainda que isolados, vão aparecendo aqui e alí. Esqueceram-se esses educadores das mensagens que aprenderam durante a sua mais tenra idade? Será que tiveram mensagens positivas como as que ensinamos as nossas meninas/meninos?

É verdade que queremos moldar os adultos e lideres do future demonstrando conductas apropriadas na sociedade, desde a forma de vestir como de estar. Mas, isso não pode vir em detrimento da nossa identidade negra e Africana. Os nossos educandos, filhos, não podem crescer a pensar que o padrão de beleza que os garante sucesso e prosperidade é contrário ao que eles são.

Sim, o cabelo deles faz parte da identidade deles. Pedir que se adaptem a uma norma é pedir que todos nós deixemos de ser criativos e espontâneos. Aceita-se sim que se requera que meninos e meninas penteiem o cabelo, que não saiam da cama e enfrentem o mundo apenas sem estarem apresentados. Mas, exigir que meninas trancem apenas por terem o cabelo natural, quando as suas colegas/amigas de cabelos desfrisados e com tissagens não tenham de fazer nada é discriminatório e pode afectar a auto-estima de quem se sinta lesado.

Qualquer pai pode escolher se a sua filha trance ou não o cabelo. Lei alguma estipula que meninas tenham de andar entrançadas. Podem os colégios argumentar que têm regras que possam ser mudadas para adaptar-se a necessidade. Mas, quando essas são geradas e transmitidas aos pupilos sem aviso apropriado aos pais e sem lugar para conversa e/ou moderação, chaga a torna-se ditador e corre-se o risco de haver retaliação.

Amo as minhas raízes!

Desenho de Lwsinha MC

Não nos esqueçamos que estamos em Angola, em África. A nossa identidade é também o nosso cabelo e não apenas o nosso nome, etc. Negar essa parte de nós e incuti-la as crianças desde tenra idade arrisca violar a criação de seres negros e de descendência negra que se aceitem como são no seu todo. A minha pequena, como outras meninas da sua idade, mais novas ou mais velhas, têm todo o direito de conhecer a verdadeira beleza das suas raizes, usando o seu cabelo entrançado, em caracóis, solto ou em carrapitos. Educar é também deixa-se expressar. Educar é ainda libertar, viver espontaneamente, ainda que dentro de alguns limites. Que esses limites não estanquem o auto-conhecimento dessas crianças e retraiam a beleza Angolana/Africana dos nossos filhos, sobrinhos, afilhados, educandos. Eu não tenho filhos nessas escolas que têm mudado as suas regras em Luanda, mas podiam ser os meus sobrinhos, afilhados… Daí o meu Ai, ai, ai! Que analizemos as nossas regras, o impacto das nossas decisões na formação dos nossos educandos. Lembremo-nos que educar vai para além do B-A→ Ba e do 1+1 são dois. Comecemos a soletrar beleza (B-E-L-E-Z-A) com todo o seu rigor natural numa equação que ultrapassa 1 escola, 1 direcção e inclui-nos a todos nós.

Digamos não ao preconceito sobre o nosso cabelo natural!

Por Lwsinha MC (Blogs: Outro Lado + D&P)

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